02 agosto 2007

A Menina e o Italiano

Um dia a Mãe levou a Menina ao cinema. Mãe, Menina e Tia no cinema em noite feminina. A Mãe gostava de filmes estranhos, quanto mais difícil a língua mais ela gostava. A Menina não entendia. Mãe e Tia discutiam. As luzes apagaram e acenderam e ela, do alto de seus doze anos, de cabelos escorridos partidos no meio da cabeça, soltou um sonoro “Ô filme podre!” E nunca mais assistiu nada do dito Italiano. N-U-N-C-A.

Mesmo assim, um pouco traumatizada, ela cresceu e foi estudar cinema. Cortou os cabelos bem curtos e desistiu do repartido no meio - pela graça de Deus! Ainda cruzava a ponte Rio-Niterói guardando um resquício da teimosia pseudo-intelectual que vinha cultivando desde os 12. “E aquele diretor, o que você acha?” – perguntavam os amigos e ela replicava com a mesma propriedade de dez anos atrás: “Ô filme podre!”

Ficou assim por muito tempo, convencida de que algo que não havia entendido no princípio estava errado para sempre. Até que decidiu despencar-se ao centro para assistir certas pérolas na tela grande. O Italiano estava lá e ela decidira dar outra chance porque era benevolente. Nunca chegou a ver o filme. O trânsito, a Voluntários da Pátria, a volta às aulas... tudo se uniu para que ela não chegasse. Na mesma hora, na sua casa na Itália, o Italiano morria.

Foi estranho quando a Menina voltou para casa porque justamente o Italiano do filme podre, a fez perceber algo novo e que andava faltando nela. A Menina entendeu que ver um filme é ter uma pessoa muito viva e presente perto de você, se desenrolando em grãos de prata e luz. Por duas horas o diretor respira no seu pescoço e, se não respirar, é porque não é bom. Era por causa disso que ela sempre achava que essas pessoas nunca morriam. Ao contrário, - ela notou - todo diretor morre aos poucos porque deixa um pedaço de alma em cada filme. Quando não dá mais para fazer filmes, eles acabam. Na hora de escrever o obituário o termo certo seria “terminou”. O Italiano não morreu, ele terminou. Que nem filme. Terminou. Dá para ver sua alma por aí.

Era a hora da Menina perder um pedaço de alma... e ela estava feliz.
"Visione del silenzio
angolo vuoto
pagina senza parole
una letera scrita sopra un viso
di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra"
Michelangelo Antonioni - Caetano Veloso

4 comentários:

Daniel Pfaender disse...

Faz cinema na UFF? Se atravessa a ponte só pode ser na UFF! Quando você disse que não gostava de Antonioni nã foi muito criticada não? Digo isso porque fanatismo é algo bem presente em alguns dos que estudam lá, igual na ECO e no IFCS da UFRJ. Parece que paira um pensamento "é Antonioni! Você TEM que gostar!" sem falar de outros diretores como Kar Wai e Rohmer que independentes de bons ou ruins, parece que vão te linchar se você ousar falar mal. Só mesmo o Bergman (que por sinal odiava o Antonioni, só gostava de Blow Up e A Noite) para poder falar mal e não ser criticado. No final o que vale é a nossa própria impressão. E concordo plenamente contigo, um diretor que consegue nos tocar nunca morre, sempre podemos ver sua alma em sua obra quando temos oportunidade!

bjs!

Anônimo disse...

também me doeu a morte de antonioni. mas a arte fica e fica etérea, dentro de cada um de nós. muitos beijos e comoção por ler teu texto. quero fazer cinema contigo, mari.

MaxReinert disse...

Olá Mari!!!
Que lindo texto!!!!
Realmente, um artista de verdade vai deixando pedaços da alma em seus trabalhos... concordo com vc!
E a gente vai unindo esses pedaços e fazando outras obras.. com a alma deles e um pedaço da nossa!!!

Voltarei outras vezes!!!

Anônimo disse...

passageiro: de novenovemeia.
passageiro: profissão cineasta.

repórter de sentimentos ocultos.
e sorriso buñueliano.

não assino por desnecessário.

 

Designed by Simply Fabulous Blogger Templates Tested by Blogger Templates