25 junho 2008

Mecânica Celeste

A humanidade quer ser lembrada. Tanto e de tal forma que se angustia, se enterra sob a tarefa em vez de buscar dias mais frescos. O velocista, o empresário, o presidente, a mãe, o homem-bomba, todos almejam apenas a memória, querem ficar retidos atrás dos olhos, numa rede diáfana chamada lembrança. É difícil não ver na memória a possibilidade de uma vida eterna, de existir para sempre como o audaz, intrépido, apaixonante, gênio... e, de todos os momentos em que buscamos essa solução para nossos dias contados, somos mais insaciáveis quando amantes.

Ali, quietos, guardados em memórias, os amantes querem se resguardar do mundo e existir em uma vida doce. Queremos, mais que todos, permanecer. Manter-nos ao alcance dos olhos, insistindo para que as fotografias não sejam arrancadas, os presentes devolvidos. Desejamos ser parte da vida do outro, como a fotografia velha que, colada ao porta-retratos, todos têm cuidado em arrancar. Até aqueles de nós que se viam como amantes seguros de si, sem medo de dores nem quedas, vêem-se arrepiados ao pensarem na possibilidade de serem lavados de enxurrada pelas sensações de uma chuva fria e nova. Então, agarramo-nos à esperança de termos sido especiais suficientes para restarmos de pé.

Permanecer dentro de alguém é o remédio para a dor da perda e a cura para todo o fim. Os mais ingênuos sabem sem perceber, os descrentes só entendem nas últimas latas d’água, que, o que sobra é lembrança e apenas isso nos ancora para os dias seguintes. No fim, queremos todos sobreviver na história, seja ela do mundo ou de outrem. Queremos essa nesga de luz que é saber que estamos vivos e bem, não só em nós, mas em outros olhos que nos vêem invariavelmente sorrindo, felizes, de mãos dadas como se, no mundo, nada pudesse nos apagar.

17 junho 2008

Conversa de Elevador

Ela exalava um aroma leve de sabonete, shampoo sem frescuras e um toque de suor porque eram duas da tarde de um dia de Dezembro. Por um momento perdi o fôlego deslumbrado com os movimentos das mãos que equilibravam perfeitamente bolsa, pasta, celular, chaves e uma sacola de compras. Óculos escuros na ponta do nariz, camisa moderninha. Apostei que era designer e eu só não tive vergonha da minha situação de vagabundo voltando da locadora porque ela tinha um all-star tão fudido quanto o meu. O celular tocou e ela abriu um sorriso ao atender.

“Olá.” – eu disse antes de atender o celular e ele respondeu balançando a cabeça. Bonito, esculhambado era um fato, mas alugar Cronenberg lhe dava pontos. Ficou parado enquanto eu lutava para administrar o telefone e tudo o mais que eu carregava. Olhou meu decote em vez de oferecer uma mão. Ainda morava com a mãe, uma pena.

A conversa não demorou, logo que a porta fechou a ligação caiu. A sacola de compra também. Apanhei com rapidez e respondi o “de nada” com simpatia.

Derrubei a sacola de propósito. Era hora de começar uma conversação. Tinha o mesmo sorriso de antes.

“Você mora aqui?” – eu perguntei sabendo qual seria a resposta porque: 1) aquela mulher era colorida demais para o Edifício Rei Salomão e 2) eu não tinha o tipo de sorte de habitar a menos de três estações do metrô de uma menina como aquela. Com certeza, estava visitando a avó. Prédios de Copacabana têm dessas, vovós com netas interessantes.

“Moro.” – definitivamente não era a resposta que eu esperava. Mas, quem está reclamando, certo? O sorriso dela lembrava o da Sandrinha, minha primeira namoradinha.

Sabia! Não lembrou, mas enfim... eu era outra pessoa naquela época... vamos dar uma colher de chá ao rapaz.

“Eu não sabia...” – gaguejei.

“Já tem umas três semanas.”

O elevador chegou e ela abriu a porta.

“Espera! Em que apartamento?”

“No mesmo de sempre, Alexandre!”

Aposto que ele não vai entender nada. Vamos deixar a porta fechar na cara de bobo dele. “Como você sabe o meu nome?” – eu ouvi a voz dele abafada pela porta do elevador.
“Presta Atenção, Alexandre! Você mora no nono!” – eu respondi.

Quem era essa menina, meu Deus? A Sandrinha voltou a minha cabeça, mas ela nunca morou no mesmo prédio que eu!

Não mudou muita coisa. Alguns quilos a mais, mas até aí, eu também. Tocou o doze só pra me ver subir, como antigamente.

Toquei o nove quando a porta fechou por inteiro. O doze era mesmo só para vê-la subir.

 

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